sábado, 19 de julho de 2008

A (des)educação da mulher

Desde que nasce até ao dia em que morre a mulher é (des)educada para ser perfeita e desempenhar durante a sua vida todos os papeis de igual modo. Assim a jovem menina é educada para ser a filha perfeita para os seus pais e a irmã ideal para os seus irmãos , a aluna brilhante da sua sala de aula. Já adolescente esta tem de manter o elevado nível sendo a amiga sempre presente , a namorada atenciosa e manter o brilhantismo nas aulas.
Anos mais tarde, a menina casa-se e agora terá de desenvolver funções de esposa perfeita, dona de casa exemplar, mãe dedicada de um ou mais filhos e ainda conciliar tudo isto com o emprego full time onde é a trabalhadora ideal e a colega simpática sempre disponível.
E a mulher? Em tudo isto onde está o espaço para a mulher, para cuidar de si, para dar asas á sua imaginação, para satisfazer as suas necessidades e desejos?

Toda a sua vida a mulher é “programada” para cumprir meticulosamente o seu papel e assistir com prontidão e excelência as necessidades dos outros. Quando esta programação falha todos apontam o dedo. A mulher é catalogada de “má rez” e coitados dos pais é que sofrem com tamanho desgosto.
Ainda hoje, em pleno século XXI a mulher que sai deste padrão é criticada e ofendida pelos seus pares. Catalogada de egoísta, convencida, depravada, vadia, a mulher que escolheu ouvir o seu eu interior e seguir os seus instintos naturais segue o seu caminho superior a toda esta mesquinhez.
Não compreende o porque de tanta critica. É assim tão complicado perceber que todos os seres humanos tem uma série de direitos e um deles é o da liberdade de escolha, independentemente do sexo, religião ou cor de pele do individuo?
Pois esta mulher escolheu seguir o seu instinto e os seus sonhos. Desde criança que não percebe o porque da submissão das mulheres e a sua eterna rendição aos desejos e ordens de terceiros. Nunca quis seguir este ( mau) exemplo que a rodeava. Havia algo mais lá fora, algo que chamava por ela, que a atraia para longe do deserto de vontades próprias que a rodeava.
Nunca percebeu porque as mulheres cediam a pressão imposta pela sociedade, nem porque insistiam em responder a questões desprovidas de senso e vindas de todo e qualquer um que se achava no direito de interferir e opinar sobre a sua vida: “ Estás tão crescida, quando arranjas namorado?”; “Tens de ter atenção, qualquer dia ficas para tia”; “Já namoras há tanto tempo...nunca mais te casas?”; “Essa relação é a sério?”; “ Quando tens filhos?”;”Quando dás um irmaõzinho ao teu filho?”.

Ahhhhhhhhh!! Parou tudo! É sufocante. Claustrofóbico. Porque não perguntar de uma vez á mulher “quando te suicidas?” ou “essa frustração toda acumulada quando te vai fazer explodir?”.
Mas para ela o pior nem são as questões é o facto de raríssimas mulheres se insurgirem contra todos estes preconceitos. Como aguentam elas a prisão de uma vida vazia. E diriam muitas vazia não, os meus filhos são o melhor do mundo e adoro ser doméstica e afins, mas quando ficam sozinhas deprimem-se ao pensar em todos os sonhos por concretizar e desejos reprimidos.
Estava fora de questão ser assim. Não fazia parte dos seus planos olhar para traz e arrepender-se de todo o tempo perdido a seguir teorias pré históricas. Decidiu erguer a cabeça e endireitar os ombros, caminhou convicta de que tomara a decisão correcta. A única dúvida que a assolava era se teria força para aguentar as represálias da sociedade.
Anos mais tarde ela era a egoísta. Pensava apenas em si mesma. Tirara um curso superior e tinha uma carreira de sucesso na área que desejava e só pensava em dinheiro e viagens.
Era a narcisista, em vez de ter marido e filhos, passava uma hora por dia no ginásio a cuidar de si, ia á esteticista uma vez por mês apenas para ser mimar.
Era a vadia, passava horas com as amigas e amigos , no cinema, bares e discotecas. Era a depravada, sem vergonha que não tinha namorado mas tinha um “amigo” novo a cada dia que passava! Não depende de ninguém.
Apesar de todos os rótulos é feliz. Não se arrepende de nada. Planeou e executou na perfeição todos os seus planos de vida. Realizou-se a nível profissional, conhece o mundo, é culta e decidida...uma mulher com M maiúsculo. Agora sim, se for essa a sua escolha vai encontrar um companheiro e construir um lar.
Passam mais dois anos e nada mudou. Continua a ser rotulada de implacável. O seu companheiro deve ser um “maricas” pois faz a sua parte das tarefas domésticas e imaginem só até cozinha. “Uma mulher a sério nunca permitiria uma situação destas! “ – dizem as más línguas “ quando tiverem filhos é ele que vai ficar em casa”.
Isto é o que dizem. Mas o que será que pensam??

Foram rigidamente educadas para falarem mal de tudo o que difere dos seus padrões, mas no fundo falam por pura inveja.
Da janela da cozinha, vêm-na sair do carro após um dia de trabalho, elegante no seu fato e stiletos.... conhecem a sua rotina de cor... retira o saco de ginásio e entra em casa. É frequente vê-la á noite na varanda a bebericar café e a ler. Descontraída. Superior a tudo o que dizem dela. Sem qualquer tipo de remorsos.
Pela manhã vai sair bem cedo, equipada para ir ao ginásio. Sorri e acena as vizinhas com quem se cruza, estas olham de lado, o que não dariam para ter aquele aspecto fresco pela manhã, mas tudo o que sentem é o peso das tarefas.
Curvadas e de aspecto sombrio sonham com uma hora, no mínimo, de tempo apenas para elas. Sabem que isso é impossível. Mesmo que dispusessem dessa hora, iriam sentir-se culpadas pelo acumular de tarefas. Não tem vida própria, nunca tiveram e agora é tarde para mudar.
Uma mudança nesta altura do campeonato equivaleria a um possível divórcio e isso está fora de questão. Seria uma vergonha. Uma desgraça, não só pelo rotulo de má esposa e má mãe, mas também porque não sabem viver sozinhas ou sem estar sob a alçada de um macho dominante. Tem medo da solidão e do tempo livre pois não sabem que lá fora há um vasto mundo de oportunidades e de coisas novas para fazer.

Ser independente também não é simples. Obviamente que como em tudo na vida há prós e contras. Passou algum tempo sozinha, pois poucos eram aqueles que percebiam a sua forma de pensar e agir. Teve muitas dúvidas mas a sua liberdade e os seus objectivos estavam acima de tudo. Não iriam ser os preconceitos sociais ou os tabus incutidos pela igreja e pelos bons costumes que a iriam afastar dos seus sonhos ou desejos.
Ainda ri ao pensar na reacção de certas amigas quando em passeio pela baixa entrava nas sex shops. Quase que morriam de vergonha só de estar á porta do referido estabelecimento comercial, quanto mais entrar e fora de questão estava a aquisição de algo.
Porquê?! Questionava as amigas... a resposta nunca era satisfatória. Era feio, era uma vergonha e se alguém conhecido as visse, que iria o namorado achar. Porquê esta submissão e total aniquilação de vontades próprias?

Desde sempre as mulheres que se tentam evidenciar são apontadas pela sociedade, mas isso não quis dizer que estas parassem e deixassem de lutar pelos seus ideais. Que seriamos de nós sem as incompreendidas sufragistas ou mesmo sem mulheres que ocuparam lugares de destaque nos tronos europeus e na politica....alguém teve de ser a primeira.
Porquê que para os homens sempre foi absolutamente natural a frequência em casas “duvidosas” e as suas práticas e escolhas sexuais nunca foram motivo para ostracização por muito pervertidas que fossem?
E porquê as mulheres em lugares de destaque, na politica ou mesmo nas empresas são sempre apontadas e catalogadas de cabras?
Este é ainda um tema tabu. Enquanto as mulheres não tomarem as rédeas da sua vida e da educação das suas filhas. Enquanto a educação de homens e mulheres não for uniformizada o mundo vai evoluir.

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