quarta-feira, 12 de novembro de 2008

No seu supremo interesse…


Ultimamente, e mais do que nunca os portugueses estão familiarizados com a expressão “ no supremo interesse da criança”. Sabem o que significa, o que esta expressão defende mas quanto á prática, para não variar, nada se faz.

Há poucos dias passou na TV a reportagem sobre maus tratos a crianças, com esta análise televisiva aqueles que o não sabiam, passam a saber que em Portugal bater no próprio filho é crime. Quanto a este tema á muito para falar, mas na minha óptica á maus tratos piores, como por exemplo os abusos verbais.
Os abusos físicos deixam na criança marcas visíveis e denunciáveis , deixando assim ao critério de terceiros a possibilidade de agir, mas mesmo assim são marcas que tendem a passar com o tempo enquanto que nos abuso verbais as marcas são eternas e invisíveis a terceiros.

Nos dias que correm podemos ver todos os dias as preocupações que há com casos de maus tratos físicos, de situações de bulling *, de abusos nas praxes, de abusos nas salas de aula, tudo isto pode muito bem ser indicativo ou causa de traumas de infância. O que não se fala é do abuso psicológico que muitas crianças e pré-adolescentes sofrem dentro das quatro paredes do seu lar.

Agressões induzidas pelos pais. muitas vezes inconscientemente, muitas vezes causadas pela exaustão e stress do dia a dia.
Expressões como “ não vales nada”; “ se não estudares não serás ninguém na vida”; tens mau gosto” vestes-te mal”; “onde foste buscar esse cabelo” etc, serão as mais comuns e se repetidas todos os dias afectam o crescimento e a auto-estima da criança.

Mas pior do que todas estas agressões são aquelas que ocorrem num cenário de divórcio, exactamente no cenário berço da expressão “no seu supremo interesse”.Aqui os pais não hesitam em usar os filhos como arma e escudo contra o adversário – o futuro ex-cônjuge.

Neste cenário é frequente verificar a criança em estado de pânico porque durante os meses que dura o processo e posteriormente ao mesmo são bombardeados de mentiras, histórias e informações muitas vezes impróprias para a sua idade sobre o progenitor ausente.

Esta tendência verifica-se com mais frequência no progenitor feminino.Pode inclusivamente ser detectado mesmo antes da situação de separação. Quantas vezes não assisti-mos já a brigas conjugais onde a mãe ameaça sair de casa com a criança se o pai não fizer o que ela deseja? Não é uma chantagem assim tão rara como se imagina pois não?
Mais tarde e durante a separação assistimos a situações como “ não gostes do pai porque é mau e foi embora “ ou o pai tem uma nova namorada não gostes dela” ou pior ainda “ o pai tem uma nova namorada e agora só gosta dos filhos dela e tu és nada”.
Posteriormente ao divórcio temos pérolas como “ então o teu pai não te veio buscar, deve estar com a outra”, “deu-te uma PS III, deve ser para compensar a sua ausência ou para mostrar que é mais do que eu.” ou “se eu sou má e gostas mais da namorada do teu pai do que de mim, porque não te mudas de vez para casa deles”.

Mas o que é isto? Sabem bem que não estou a extrapolar nestes expressões, possivelmente estou até a ser bem, suave nas mesmas. Agora pergunto eu, onde está o bem da criança aqui? O Seu supremo interesse? E onde está aqui a intervenção do estado ou dos pedo – psicólogos ( que nos últimos anos nasceram tipo cogumelos por todo o lado)?

Isto sim é abuso. Isto sim causa traumas irreversíveis e isto sim vai moldar um futuro muito negativo para a criança.
O divórcio é uma fase traumática para os pais, mas acima de tudo é o para os frutos do casamento que se vêm como que num campo de ténis a ser jogados de um lado para o outro, a serem magoados no mais intimo dos seus sentimos.
Já não basta verem a sua vida quotidiana a ser abalada ainda têm de ver os alicerces da sua educação desabar e o mais puro dos sentimentos que conhecem – o amor paternal – a ser transformado numa arma de chantagem emocional.

Onde está aqui a figura paternal na verdadeira essência da palavra? Será realmente verdade que criamos monstros? Se nos revimos nos exemplos deste texto a resposta é sim…criamos monstros porque no fundo as crianças emitam sempre os pais seja por educação ou por não haver melhor exemplo a seguir.

Comportamento gera comportamento….


*bulling -termo de origem inglesa utilizado para descrever actos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou um grupo de indivíduos com o objectivo de intimidar ou agredir o outro incapaz de se defender.

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