terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Encontravam-se duas ou três vezes por semana, e nunca nas férias, e nunca nos fins-de-semana. O tempo que passavam juntos, ambos o roubavam à família e ao trabalho.
 Nas tardes de Janeiro ou de Fevereiro, quando os dias se vão tornando mais compridos e o sol irradia, já do poente, beijavam-se à sombra das pontes.
 Os seus refúgios mudavam frequentemente.
 No carro.
 No bosque.
 No bosque cruzamo-nos com pessoas que nos reconhecem.
 Restavam os quartos. O mesmo várias vezes seguidas. Ou outros, consoante o acaso.
 Há estranhas amenidades na ténue iluminação dos quartos de hotel; o luxo modesto do vasto leito, tem os seus encantos.
 E chega a altura em que já não podemos separar o ruído das palavras e dos suspiros e o contínuo zunido dos motores e o chiar dos pneus que sobem a rua.
 Durante anos a fio, estas pausas furtivas, na trégua que se segue.....
 De pernas emaranhadas e braços esticados...
 Eles não tinham noite comum.
 Urgia, de repente, a esta ou àquela hora de antemão fixada - o relógio não sai do pulso - voltar a partir.
 Urgia, cada qual reencontrar a sua rua, a sua casa, o seu quarto, o seu leito de todos os dias, reencontrar aqueles a quem os ligava uma outra maneira de inexpiável amor, aqueles a quem o acaso, a juventude ou eles próprios se tinham dado de uma vez para sempre, e que ninguém pode abandonar nem ferir quando está no cerne das suas vidas.

 (...)

 Os obstáculos de cada dia, de cada semana bastavam-lhes para se atormentarem, num permanente receio de que o outro houvesse mudado. Não exigiam a felicidade, mas tendo-se reconhecido uma vez, pediam a tremer que aquilo durasse, meu Deus, que aquilo durasse... que, de súbito, um dos dois não surgisse estranho ao outro..."



 Pauline Reáge in Regresso a Roissy

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